Monday, December 10, 2007

Meditação sobre Kraft de Magnus Lindberg



(fotografia de Henri Cartier-Bresson, "Henri Matisse", 1944)

o fogo. a rebelião do fogo. o silêncio. escrevo um texto no sentido corrente do fogo. a tempestade. como um alarve de indumentária branca. baixo. fogo, as armas nos canhões.

diz a música nos trabalhos da guerra. mortos. pedaços de relógios assumindo o seu poder de morte. tento e calo-me. sou só eu. a nuvem branca, a branca paisagem no tiquetaque da penugem do corpo.

abro as mãos. e as formigas. sou o receptáculo da pele. batida. batida. coração. coração. abro. abro. abertura da ordem dos peixes. o tiquetaque da génese matemática. cala-te. o caçador engole-te a presa. e invoca o anjo e engole a seiva na vontade e no poder do fogo.

anima-te de sangue
e
anima a alma do bárbaro.

a selva. um dia. dois. o cavalo. dois cavalos. e a cabeça de um rinoceronte de barbas vermelhas. piano. um poema que segue admirando o funeral de um oboé. o violoncelo faz sexo com um trombone e cria a Metamorfose de Kafka virada ao cubo.

vermelho
preto
duas cores

atira uma pedra para a fuça de um pardal. queres matá-lo, eu sei. todos os dias são dias de sangue. é a guerra. já diria fausto. com os crocodilos à flor do lácio. e as pernas deitadas no amanhecer do caos de açúcar. já experimentaste fumar um cabide de pele? e engoli-lo. e saudá-lo como se saudaria César e um pombo com o esqueleto de um pardal.

sirene. sirene. ronco. ronco. ronco. a carga da brigada ligeira. os massacres de amritsar. um morto. dois mortos. três. quatro. quantos mais indianos morrerem, mais a Inglaterra será a rainha da civilização.

quero jogar ping pong. a bola. duas bolas. berlim ocidental e oriental. um muro separa as duas guerras. a da direita e a da esquerda. à frente ou atrás? pela direita de lugar nenhum, como o silêncio fosse só nosso.

Kraft das werk americanische. Bush lo sanguinaria che riconosche Mongo Santamaria as a very good piano player.

uma pauta de. Pan. o pandemónio do relógio que se esquece de dar as horas. so contrário, a direita, no silêncio e na escuridão. quero amanhecer. parece manhã. tenta descobrir Peer Gynt na melodia desta música.

talvez o amanhã seja apenas hoje. e hoje seja um dia como outro qualquer. pim. um pároco que se envaidece de olhar um violino agastado. para lá do outono e onde o cravo não ferra na definição religiosa do amor.

quero telefonar e tocar tamborete neste coreto sem qualquer ligação eclesial com a violência. quero um fagote. e uma bateria que se descuide. logo através do ronronar de um morcego adormecido de ódio.

os óculos olham e vislumbram que a tempestade se aproxima. o fogo. a treva. uma mulher nua na cama de pirâmides selvagens. auf. auf. faz o cão e as kraft der americanische autoren.

rómulo matou remo e comeu as suas próprias vísceras. Dioniso/Cronos/Odin no templo sagrado do Lácio invocando o fogo da pedra chã. e rasa. e sem forma. disforme. lamacenta.

atreve-te.
sugere.
rouba.
mata.
escreve um livro com as palavras dos livros.
um romance na ribanceira da alcova. e um cigarro aberto. que não apaga. e nunca se deita. para tu morreres de combustão permanente.

e sem fim.

rómulo matou remo. acercou-se de todos nós e pediu licença para vomitar.

Jorge Vicente

3 Comments:

Anonymous Xanda said...

"já experimentaste fumar um cabide de pele? e engoli-lo."

"quero amanhecer."

"tenta descobrir Peer Gynt na melodia desta música."

"rómulo matou remo. acercou-se de todos nós e pediu licença para vomitar."

Lindo! As minhas preferidas

9:20 PM  
Anonymous Anonymous said...

This comment has been removed by a blog administrator.

3:04 PM  
Anonymous Anonymous said...

Tambem sao as minhas (menos a segunda que nao sei quem e eheheh) e mais esta...

"talvez o amanha seja apenas hoje. e hoje seja um dia como outro qualquer."

3:05 PM  

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